Tuesday, August 01, 2006

AMEAÇAS DIFUSAS

Christina Fontenelle
1/08/2006mailto:1/08/2006chrisfontell@gmail.com
O General José Benedito de Barros Moreira, comandante da Escola Superior de Guerra (ESG), era um cidadão praticamente anônimo até convidar o líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João P. Stédile, para fazer uma palestra sobre reforma agrária para os alunos daquela escola. Se a intenção do General era ganhar notoriedade, seja lá porque motivo fosse, ele conseguiu. Agradou a uns e desagradou a outros. Mas, isto é de se esperar de quem se posiciona - já que quem a todos quer agradar acaba não agradando a ninguém. O General fez suas apostas e o jogo ainda não acabou. O que interessa, entretanto, é que agora o que o Comandante da ESG faz e diz passou a ser notícia, pelo menos por um tempo, quer ele goste disso ou não.

Na semana passada (25/07), o General Benedito de Barros Moreira esteve na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) para dar uma palestra para 54 empresários do setor da indústria de materiais de defesa, na abertura de um curso de "Gestão de Recursos de Defesa", que é ministrado pela ESG, fora do âmbito das Forças Armadas e dos ministérios em Brasília.
Para o General Barros Moreira, a transformação da sociedade brasileira depende da implementação de uma profunda reforma legislativa e de uma justiça ágil que priorize o fim da impunidade. Na avaliação do general, essa transformação seria consolidada com investimentos em educação, inserção social e, principalmente, com o aumento da classe média consumidora, "o que resolveria em grande parte o problema da segurança pública". Essa foi uma das coisas que ele disse em sua palestra.

O discurso é conhecido: a pobreza é uma das grandes responsáveis pelos problemas de segurança pública; por isso, o Estado deve promover a educação e a inserção social dos pobres, criando, assim, o crescimento daquilo que se classifica como classe média. Traduzindo: um Estado intervencionista, abdicando de sua responsabilidade embrionária de garantir a segurança dos cidadãos, assume a responsabilidade de distribuir as riquezas produzidas, extorquindo aqueles que trabalham e produzem, através da cobrança de impostos, para promover o crescimento de uma classe média artificial – formada pela decadência dos que são roubados e pela ascensão dos que passam a usufruir de parte daquilo que foi roubado (uma pequena parte, já que “o grosso” mesmo fica com o Estado – com a nomenklatura governante – que cria a necessidade do assistencialismo, iludindo os miseráveis com a figura do salvador que promove a justiça social, para viver, nababescamente, às custas do trabalho de uns e da miserabilidade de outros).

Fim da impunidade? Stédile, convidado pelo próprio General Comandante da ESG a dar palestra naquela escola, é um dos símbolos da impunidade da qual se beneficiam os amigos do poder. O líder nacional do MST já foi processado por ter defendido a invasão de terrenos nas cidades e por fazer acampamentos na porta de supermercados, no Rio de Janeiro, onde pregava uma aliança entre os excluídos do campo e da cidade. Stédile, em diversas oportunidades, definiu como "inimigos" os produtores rurais com mais de 2.000 hectares e convoca os sem-terra a se unirem para tirá-los da terra: "Na luta camponesa, há hoje 23 milhões de pessoas que precisariam ver a terra melhor dividida. Do outro lado, têm 27 mil fazendeiros. Essa é a disputa que tem na nossa sociedade: 23 milhões contra 27 mil. Dá mil trabalhadores rurais contra um. E aqui começa a primeira reflexão. Será que mil conseguem perder para um? É muito difícil. É ou não é? Então o que está faltando para nós? Está faltando para nós juntar os mil para cada mil pegar um".

Tem mais. O Ministério Público do Rio Grande do Sul apresentou denúncia contra 37 integrantes da Via Campesina, grupo ligado ao MST, que invadiu o horto do grupo Aracruz no dia 8 de março de 2006, em Barra do Ribeiro (RS). Entre os denunciados está João Pedro Stédile. O promotor apóia sua denúncia em documentos apreendidos sobre movimentações bancárias, passagens para transporte coletivo, comprovantes de despesas de viagens, vários recibos, além de lenços e faixas utilizados por manifestantes no ato. Stédile discorda das acusações que lhe são feitas e considera uma humilhação ter de se retratar pelo que diz não ter feito. Considera assim, não comparece às convocações do MP e PT saudações.


Apesar de tudo isso, o General Barros Moreira disse que, se Stédile tem dívidas com a Justiça, isso não era problema dele (do General). E não é mesmo. Mas, chamar um indivíduo desses para receber diploma de palestrante da ESG é, principalmente quando o próprio General prega o fim da impunidade na palestras que profere.

O General Barros Moreira disse também, na palestra da Fiesp, que o Brasil precisa diminuir a dependência no fornecimento de materiais de defesa, por parte da indústria nacional, que não está tendo incentivos para um desenvolvimento adequado. Argumentou que há escassez de recursos para Forças Armadas, principalmente para investimentos em pesquisa e desenvolvimento, o que torna o Brasil dependente do mercado externo numa área estratégica. As duas coisas juntas, segundo o General, tornam o país vulnerável no cenário de instabilidade mundial.

Apesar de deixar claro que os militares do Exército estão capacitados para um possível conflito, falou que há carência de novos equipamentos, como mísseis para defesa aérea de alta altitude e veículo lançador de satélites - equipamentos que países do porte do Brasil não poderiam abrir mão, segundo o General. O Comandante da ESG revelou que, igualmente, a escassez de recursos para a defesa marítima também causa relevante preocupação, uma vez que 90% da atividade petrolífera é realizada no mar e que 95% do comércio internacional acontece por essa via. "Embora a legislação diga que os royalties do petróleo devam ir para a Marinha, esse dinheiro acaba no pagamento da dívida", lamentou o General.

Não acaba no pagamento da dívida não, General. Acaba na ganância do Estado assistencialista e no desperdício do dinheiro público, como é o caso da propaganda estatal, por exemplo, que é usada para convencer a população de que o Governo é bom, quando a realidade mostra coisa bem diferente. Acaba no bolso de congressistas, de funcionários públicos, de lobistas e de pseudo-empresários inescrupulosos. Acaba nos cofres de ONGs e de movimentos reivindicativos, entre os quais o MST e congêneres, que, financiados pelo Estado, promovem arruaças, invasões, quebra-quebras e a revolução comunista.

Para o General Barros Moreira, somente a reestruturação do Estado brasileiro, a partir de um fortalecimento de dentro para fora, tornará o Brasil apto para os desafios contemporâneos, que, para ele, são as intensas mudanças da América Latina, a alta demanda por petróleo, os conflitos étnicos e religiosos – sobretudo no Oriente Médio –, a expansão econômica e militar da China, a proliferação nuclear, a guerra ao terrorismo e a diminuição do poder de intervenção da ONU.

Ora, se são as mesmas as mudanças da América Latina que o General vê, as que muitos de nós brasileiros vemos, muitas delas estão em curso por causa de gente como Stédile, com o qual o General diz concordar com os propósitos, mas não com os meios. Resta saber se o desafio ao qual o Comandante da ESG se refere é ajudar a construir o bloco unido das nações latino-americanas ou, ao contrário, fazer com que o país não caia nessa armadilha – que com total e absoluta certeza nos conduzirá à perda total de nossa soberania e de boas partes do território brasileiro.

Quando o General fala da expansão econômica e militar da China ele está se referindo a um problema? E quanto à proliferação nuclear? Também é um problema? E a mesma pergunta se faria em relação à guerra ao terrorismo. O atual governo brasileiro, que acolhe e financia revolucionários comunistas como Stédile, apóia plenamente a expansão chinesa, tanto na esfera militar como na econômica. Não é à toa que o contrabando, associado à pregação e à aceitação daquele país como uma economia de mercado, tem levado muitas indústrias brasileiras à falência. Esse mesmo governo também manifestou apoio à nuclearização do Iran e da Coréia do Norte, em nome da soberania nacional daqueles dois países. Guerra ao terrorismo? Dentro de um país que não considera as Farc da Colômbia uma organização terrorista, que tem na sua presidência o fundador do Foro de São Paulo, e que dá asilo político a terroristas?


Sim, asilo político a terroristas. O beneficiado mais recente é o guerrilheiro colombiano Francisco Antonio Cadena Colazzos - o padre Medina -, que em breve estará circulando livremente pelo nosso país. Medina pertence às Farc - grupo terrorista que, entre outras coisas, matou 3 e feriu outros 9 militares do Exército Brasileiro, em fevereiro de 1991, na fronteira do Brasil com a Colômbia. Aliás, o comandante das Farc, Manuel Marulanda Vélez, faz parte do conselho editorial de uma revista chamada América Livre. São seus companheiros de conselho na revista figuras como Eduardo Greenhalgh (PT), Emir Sader (que é o editor), Chico Buarque de Hollanda e João Pedro Stédile. Um dos presidentes do conselho editorial da revista foi Carlos Alberto Libânio Christo, mais conhecido como Frei Betto, ex-assessor especial do presidente Lula.


Sobre a tal revista, já em 2 de dezembro de 1999, no plenário da Assembléia Legislativa Rio Grande do Sul, o Deputado Roque Grazziontin (PT) leu um comunicado sobre a realização do V Seminário Internacional da Revista América Livre, e fez um resumo da publicação: “a revista promove intercâmbio entre diversos rincões da América Latina, que seguem alentando os sonhos de uma sociedade de homens e mulheres livres, na qual o egoísmo seja substituído pela solidariedade; o individualismo, pela ação coletiva; a injustiça, pela justiça; a corrupção, pela ética. Uma sociedade pela qual os valores e a cultura que produzem o capitalismo sejam substituídos pelos valores e pela cultura que fundamentam um projeto emancipatório, libertador e socialista”.


Voltando à palestra do General. Afinal, as Forças Armadas devem ser fortalecidas para estar em condições de enfrentar o que ele mesmo classifica de desafios, a fim de assegurar a soberania nacional diante de possíveis ameaças ou para contribuir decisivamente com o que nossos governantes estão planejando para o futuro do Brasil (que não será mais o Brasil, será o Brasil-latino-americano)? Sim, porque estas FFAA bem equipadas e bem preparadas estariam sob as ordens do Governo, não estariam? FFAA fortalecidas ainda são uma realidade totalmente incompatível com os planos dos que hoje estão no poder. Na verdade, e nem lá tão no fundo assim, eles ainda querem vingança – feito aquela que estão perpetrando na vizinha Argentina. Entretanto, essa incompatibilidade acabará se resolvendo quando aqueles que estiverem nos cargos de comando das FFAA e o Governo (revolucionário) compartilharem dos mesmos ideais - coisa que parece estar ficando cada vez mais possível de acontecer. Infelizmente.


Vale lembrar que uma boa pista em relação a este tema já foi dada no episódio que envolveu a denúncia, feita através da revista Veja, de que as Farc haviam doado dinheiro para a campanha eleitoral do PT em 2002. Naquela época, duas coisas chamaram a atenção sobre essa questão de comportamento, dentro da esfera militar. A primeira delas foi o fato de o General Jorge Armando Felix, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, após ter confirmado como verdadeiras as informações da revista à CPI que investigava o caso, ter dito que a Abin havia classificado os documentos sobre o caso como “boatos”, mas que os mesmos haviam sido arquivados como “secretos”, para evitar o vazamento da informação, que poderia vir a ser explorada eleitoralmente contra o então candidato “oposicionista” Luiz Inácio Lula da Silva. A segunda coisa que chamou a atenção foi a atitude oposta do Coronel da PM que colaborou com a reportagem da Veja – ele pediu demissão da Abin por não ter concordado com a orientação dos resultados das investigações no caso das Farc e muito menos com o arquivamento do mesmo, logo após a vitória de Lula nas eleições presidenciais de 2002 (*). Precisa dizer mais alguma coisa?


Voltando ao General Barros Moreira. Se ele diz que concorda com as idéias de Stédile (embora não com os meios empregados) e se também é um confesso antiimperialista, mas, ao mesmo tempo, afirma temer a China expansionista (embora não tenha citado a Venezuela, que está bem mais perto e que vem se armando loucamente), estará o Comandante da ESG pretendendo que o Brasil venha a se tornar uma imensa ilha próspera e auto-suficiente? Ou ele desconsidera o fato de que necessariamente o país precise definir quem são seus aliados na atual distribuição de poder pelo mundo? O que, diga-se de passagem, parece que já foi decidido pelos que hoje nos governam. Num país com o tamanho e com as riquezas do Brasil não há espaço para “neutralidades suíças” não.

É só verificar o que foi falado e acertado pelos ministros da Defesa de 12 países da América do Sul, dentre os quais o Brasil, na primeira reunião da Comunidade Sul-Americana de Nações (CASA), em Bogotá (Colômbia), nos dias 15 e 16 de julho, para decidir e programar os meios necessários para o enfrentamento das ameaças à segurança e à defesa da região. O encontro foi convocado pelo governo da Colômbia, que aproveitou a presença dos ministros da Defesa dos países membros da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), para discutir as soluções para as ameaças à Amazônia.

Segundo o Ministério da Defesa, o Brasil apoiou a proposta do Peru, para se criar uma Comissão Especial sobre Defesa e Segurança da Amazônia. Entre outros assuntos acordados na reunião, destacam-se a importância de preservar a Amazônia como reserva ecológica, rica em recursos hídricos, com sua flora e fauna ameaçadas pelo tráfico de espécies, pela devastação das florestas e pelos cultivos ilícitos. Ou seja, deixem a Amazônia quietinha assim como está, despovoada e não aproveitada, porque que é assim que as grandes corporações globalistas querem que a região fique – e certamente isso está muito longe de nacionalismo, muito longe mesmo.

O Ministro Waldir Pires destacou o fortalecimento da cooperação sul-americana na defesa das necessidades, interesses e aspirações dos seus povos. Pires reiterou o ponto de vista do atual governo brasileiro, na segunda-feira, dia 17 de julho, ao receber a visita do Comandante-em-Chefe da Armada do Chile, Almirante Rodolfo Codina Diaz. Para o nosso Ministro da Defesa, "hoje, no Brasil, a integração está em primeiro título, é algo permanente para nós, um dever. Claro que priorizamos, também, a dignidade da pessoa humana e a cidadania. Mas, a integração é fundamental”.

Como eu disse, seremos o Brasil-latino-americano. E olha que quando o Ministro começou a dizer “Claro que priorizamos também”, eu cheguei a pensar que ele fosse falar da nossa soberania, da defesa de nossos interesses. Quanta inocência a minha!

Mas, Waldir Pires está fazendo a parte dele, trabalhando em prol daquilo em que acredita. Suas falas são claras para quem quiser e souber ouvir. Por exemplo, na solenidade que marcou 133º aniversário de Santos-Dumont, realizada na Base Aérea de Brasília, Pires foi claríssimo: “Essa linda e admirável homenagem que a Aeronáutica presta ao grande patrono, é com certeza, um motivo para termos Forças Armadas capacitadas, preparadas e fortes para o destino da construção de uma civilização da paz”. Ou seja, enquanto as FFAA ficarem assim fazendo lindas festas elas estarão muito bem preparadas para a construção de uma civilização da paz (que é o que interessa: formação da grande aldeia global fascista) e não para a construção de um Brasil forte e soberano. A “civilização de paz” se sobrepõe ao Brasil – mais claro impossível.

Nessa altura do campeonato não é mais possível que aqueles que se dizem nacionalistas sejam incapazes de enxergar que os agentes do globalismo apropriam-se dos elementos do discurso radical nacionalista, no que se refira ao anti-imperialismo (norte-americano e europeu), para alcançar suas metas. Quando isso acontecer, esses agentes do globalismo cuidarão de eliminar, um por um, os nacionalistas que os ajudaram – ainda que o tenham feito por engano. Condescender com essa gente é assinar a própria sentença de morte.


Chega! Termina aqui a minha estória com as Forças Armadas. Não me dá prazer nenhum escrever artigos como esse – que são muito mais para alertar do que propriamente para criticar pura e simplesmente. Mas isso acaba aqui. Em alguns dos artigos que costumo escrever, tenho sido uma defensora das FFAA, dentro do pouco espaço que tenho na mídia. Pouco espaço esse, aliás, que devo, entre outras coisas, justamente ao fato de defendê-las. Mas, o fiz por uma questão de convicção, de justiça, e ninguém me deve nada por isso.


Escrevo sobre muitas coisas, mas tenho dado “minha cara a tapa” na defesa de muito da verdade que é sonegada e inventada pela mídia, para destruir a imagem das FFAA, bem como para falsificar a história do Brasil, com a coragem, o amor e a determinação que tenho visto faltar na maioria daqueles vestem as fardas e que fazem juras à Constituição e à Bandeira brasileiras. Sei que muito disso acontece pelo rigor da disciplina militar, que exige um autocontrole muitas vezes heróico dos homens que escolheram a carreira militar. Entendo; mas, há limites – entre eles o senso de justiça e a indignação, que, na minha opinião (que tem se demonstrado inútil, diga-se de passagem) não podem ser ignorados.


Gente como eu não está limitada por rígidas disciplinas. E por isso pode falar, denunciar. Mas também não ganha absolutamente nada por fazê-lo. A não ser o benefício da consciência tranqüila – que é muito bom, mas não paga contas e nem compra comida. E é por causa disso mesmo que exigem coragem – porque o preço que se paga é alto. Mas, quem é que se importa com os sacrifícios de uma pessoa comum que resolveu defender a quem nunca pediu por isso? Quem é que se importa com aqueles que acreditam em valores tão ultrapassados como honra e honestidade? Quem é que se importa com gente que quer defender o Brasil sem se candidatar a uma vaga no Congresso Nacional?


Infelizmente (para mim, é claro), eu devo reconhecer que meu esforço foi em vão. A água no meu biquinho de passarinho não foi capaz de sensibilizar outros a fazer o mesmo e muito menos foi capaz de apagar o incêndio na floresta. Chega uma determinada hora em que até o mais imbecil dos seres é obrigado a reconhecer que perdeu, que não dá mais para lutar. Principalmente quando aqueles pelos quais se luta para defender passam anos e anos sem se manifestar e quando começam a fazê-lo, ao contrário do que se esperava (quem os defendeu assim esperava, é obvio), agem no sentido de agradar a aqueles que os agrediam e contra os quais se percebe ter perdido tempo ao defender. Pior: quando chega a hora em que se poderá acabar como vítima daqueles que se defendeu.


Recolho-me à minha insignificância e reconheço a inutilidade dos sacrifícios que fiz. Não foi por falta de aviso não. Muitos dos que me cercam, há muito, já olham para mim, ora com ares de piedade ora de desaprovação. Uns porque simplesmente acham que idealismo não enche barriga e outros porque lhes traz prazer e alívio assistir a derrota da persistência, do talento, do sonho – pois, assim, podem se confortar pelo fato de não terem se empenhado em grandes projetos pessoais. Não é por mal não; é da natureza humana mesmo.


Não preciso de piedade – de orações, talvez; mas não de piedade. Simplesmente porque, se algo de bom levei dessa estória, esse algo foi o prazer de ter feito tudo o que estava ao meu alcance para que vencesse o que eu acreditava ser o bem e a justiça. E, como diz aquele anúncio, o prazer do dever cumprido não tem preço. Tem sim, mas não se paga com cartão de crédito e nem com a piedade de ninguém.



(*) A Revista Veja na edição de 16 de Abril de 2002, com o título "Os tentáculos da FARC no Brasil", publicou a denúncia de uma suposta doação das Farc, em 2002, para a campanha eleitoral do Presidente Lula e do PT. Segundo o artigo da revista, o representante das FARC, Francisco Antonio Cadenas Collazzos, conhecido no Brasil mais como “Padre Medina" (esse que recebeu asilo político do Brasil), teria anunciado uma doação de 5 milhões de dólares do exército guerrilheiro para o PT, no dia 13 de abril de 2002, numa chácara localizada nos arredores de Brasília.

A denúncia provocou a abertura de uma CPI que foi presidida pelo Senador Cristovam Buarque (então ainda no PT), e durante a qual o general Jorge Armando Felix, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, confirmou a informação dada pela reportagem da VEJA, dizendo que, de fato, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) guardava em seus arquivos um documento que informava que as Farc planejavam dar 5 milhões de dólares à campanha do PT.

O auxílio financeiro aparecia no documento número 0095/3100, datado de 25 de abril de 2002 e classificado como "secreto". O general disse na CPI que a informação sobre a doação não foi levada a sério pela Abin, que a havia encarado como "um boato" e que, portanto, arquivara o documento. O general explicou ainda que catalogaram como “secreto” aquilo que não passava de “boato” para evitar o vazamento da informação e sua exploração eleitoral contra o então candidato oposicionista Luiz Inácio Lula da Silva.

Entretanto, duas outras testemunhas do caso - um agente da Abin e seu ex-superior, o Coronel Eduardo Adolfo Ferreira – disseram à Veja que, ao contrário do que disse o general Jorge Felix, a Abin não desprezou o conteúdo do documento. As investigações sobre a guerrilha colombiana, iniciadas em 2000, eram tratadas como assunto ultra-secreto. Para evitar vazamentos, os relatórios eram digitados no gabinete do então diretor de Inteligência, José Milton Campana (que no governo do PT acabou sendo promovido a diretor adjunto da Abin), onde, além dos diretamente envolvidos no caso, apenas um analista de informações e um assessor tinham acesso ao material. Segundo o Coronel, foram feitos três memoriais completos sobre o caso, que foram encaminhados diretamente à então diretora da Abin, Marisa Del'Isola. A Abin em São Paulo obteve três ordens de pagamento, somando cerca de 1 milhão de dólares, com indícios de que se tratava de parte do dinheiro das Farc para o PT. Os indícios eram fortes, mas ainda não constituíam provas; porém, a investigação parou quando o PT ganhou as eleições.

O coronel, de 49 anos, trabalhou por sete anos na Abin e deixou o posto em julho de 2003, por causa de divergências em relação à condução do caso Farc. Hoje, ele dirige o departamento de inativos e pensionistas da Polícia Militar do DF. O coronel sempre esteve ligado à área de informações. Pertenceu ao Centro de Informações do Exército e chefiou o serviço de inteligência da PM do DF.

No dia 17 de Março de 2005, o senador Cristovam Buarque deu por encerrada a CPI que investigava a denúncia da susposta doação das Farc para o PT. A Comissão ficou satisfeita com as explicações dos responsáveis pela Abin: o General Jorge Félix e o diretor Mauro Marcelo. As investigações, entretanto, não levaram em consideração os testemunhos de agente da Abin e do seu ex-superior, o Coronel Eduardo Adolfo Ferreira, apesar de os dois terem corroborado a história publicada pela revista Veja.

O diretor adjunto da Abin, Mauro Marcelo, acabou vindo a renunciar ao cargo em meio à crise do mensalão, quando a Abin foi acusada pelo ex-deputado Roberto Jefferson de ter sido usada pelo Ministério da Casa Civil, sob o comando do então Ministro José Dirceu, para colher informações que poderiam ser usadas como material de extorsão ou perseguição. Prática, aliás, que veio a atingir o seu ápice, quando o caseiro Francenildo teve sua conta bancária e sua vida ilegalmente devassadas sob as ordens de gente poderosa dentro do governo.
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Depois de escrever este artigo/carta, eu recebi um e-mail que mostra a conversa entre militares da ativa e da reserva. Os nomes foram substituídos por Indivíduo 1 e 2. Tirem suas conclusões.
Prezado Indivíduo 1,

Esta carta é de suma importância - pode difundir como quiser.

Tudo vem confirmar que eles agem há muito tempo e os milicos continuam na posição de sentido. Olavo de Carvalho deixou o Brasil; Diogo Mainardi, idem. Não agüentaram o sangue de barata do brasileiro.

Um meu amigo de Recife, ex-Delegado da ADESG, me informou sobre uma “inesquecível” palestra que assistiu lá mesmo em Recife, na Faculdade Boa Viagem, em nov./05, versando sobre a "nova ESG" e sobre um curso latu sensu promovido pela mesma escola sobre "Estratégia Militar e Defesa Nacional", facultado a civis de qualquer profissão, de nível superior. Este meu amigo informava que o Coronel Ustra tinha tomado conhecimento de todo o conteúdo das palavras do Gen. Barros Moreira, Cmt. ESG.

Prezado Indivíduo 2,

Sobre a palestra que tratamos no e-mail anterior transcrevo algumas anotações que fiz. A palestra estava marcada para começar às 19h00min, mas sofreu 1 hora de atraso sem que fosse, pelo menos, informado o motivo do atraso, uma vez que todos os palestrantes já estavam presentes. No amplo auditório da Faculdade Boa Viagem havia cerca de quarenta pessoas presentes entre civis e militares, alguns fardados, outros a paisana. Detalhe curioso e interessante: apenas 5 mulheres presentes. Dentre as autoridades estavam o Prof. Ari, diretor e proprietário da faculdade Boa Viagem, que abriu a solenidade, o Cmt da 7ª RM, General de Divisão Santa Rosa, o General Cmt da 10ª Div de Inf. Blind., que não guardei o nome, o Cel. Vandeli, Ch. do Centro de Atividades Externas da ESG, Dr. George Emílio, Coord. de Cursos de Política Estratégica, o Gen. Andrade Nery e o Comandante da ESG, o Gen. de Ex Barros Moreira.

O Cel. Vandeli apresentou, através de slides, a nova estrutura da ESG que, segundo ele, “não mudou muito em termos estruturais, mas sim em termos operacionais e políticos”. O tema básico da “nova” ESG é: “O fortalecimento do processo de integração do Brasil com os países da América do Sul”. Dentre as alterações estão: 1) a mudança no sistema de ensino – menos pedagógico e mais andragógico – (segundo ele, como os alunos são todos adultos, diminuiu-se o tempo das aulas de 45 para 30 minutos e aumentou-se para 15 minutos o tempo dos intervalos, de modo que os alunos possam “se socializar” melhor, conversar com os colegas ou amigos que estejam em outro curso, dentro da própria ESG); 2) promoção da reunião de oficiais de nações amigas; 3) criação de uma editora para publicação e difusão do material didático próprio ou de outros órgãos que tenham relação com os assuntos abordados pela ESG; 4) promoção de conferências com diretores ibero-americanos; 5) promoção de encontros e de intercâmbio com a mídia e universidades e, finalmente, 6) mais “humanismo” e menos “positivismo”, cursos mais voltados para as “questões sociais”. Referiu-se ainda a convênios já firmados com a China, a França e a África, e que “no ano seguinte militares da direção da ESG irão à China trocar impressões e experiência com os militares chineses”. A esse respeito afirmou que não há mais interesse em intercâmbios com a “hegemonia americana” e a nova política pretende estreitar laços com outros países, tais como estes citados. Anotei tudo dos slides; não é interpretação minha.

A palestra do Gen. Barros Moreira confirmou o que eu já sabia a respeito dele: simpático, fala mansa e seguro no que afirmava, com boa fluência, mas, ou é desinformado ou um perfeito conivente com as asneiras que proferia. Seu tema foi “Reflexões sobre a Nova Ordem Mundial e o Terrorismo”. Iniciou falando sobre a hegemonia militar dos Estados Unidos e sobre sua prepotência em relação ao Haiti – que qualificou como “quintal dos americanos” e que por isso “invadem” (por se acharem com direitos) – o que levou ao desgaste das FFAA brasileiras perante aquela nação. Tudo culpa de Bush, óbvio!

Em seguida, proferiu a maior asneira que jamais pensei poder ouvir de um oficial general; segundo ele, o 11 de setembro foi um “verdadeiro achado” para os americanos, que estavam com armamento e pessoal ociosos e “precisavam” de um inimigo para guerrear, considerando que, depois das fracassadas invasões do Vietnã, do Kuwait e do Irã, ficaram sem um “inimigo visível”, para dar vazão a todo o dinheiro investido na área militar. Declarou que vê como “arrogância do império” (palavras textuais!) eleger o terrorismo como o inimigo, pois este não tem identidade própria e isto dá ao “império” muito poder, além de vulnerabilizar os demais países do mundo que não concordem com tal denominação.

Referiu-se a uma “Resolução 1373”, do Conselho de Segurança da ONU, elaborada em 28.09.2001, como “impositiva”, à qual o Brasil foi frontalmente contrário, porque “nós não temos terroristas em nosso território” e não podíamos concordar com esta “caça” a pessoas suspeitas de cometerem atos de terrorismo.

Afirmou que o Itamaraty estava fazendo um “excelente trabalho, com pessoas muito competentes” e que no caso da Tríplice Fronteira, e mais precisamente em relação à “invasão americana” no Paraguai, foi firme em condenar as atitudes dos Estados Unidos. Pelo que pude depreender, embora ele não tenha explicitado, o que vigora para a ESG é a mentira disseminada por Fidel e seus seguidores e não a verdade. Confirmou que o Itamaraty, com apoio da ESG, trabalha para fortalecer a união do Mercosul e do Pacto Andino, alegando que os Estados Unidos tentam enfraquecer o Mercosul por estarem com sua economia fortemente abalada e em declínio, daí tentarem “empurrar” a ALCA para os países sul-americanos. “Mas nós demos um merecido não!”, disse ele com convicção e entusiasmo.

Durante todo o tempo de sua exposição fez rasgados elogios à ONU, afirmando que o Brasil tem que fortalecer esta instituição, pois hoje ela não progride porque está “sob o domínio” do Império. Teceu loas e mais loas a Koffi Anan, elogiando sua perseverança em combater os “ataques” americanos à maravilhosa instituição. Trouxe nos slides um texto de Koffi e citou como “fontes de informação” os relatórios da ONU e o The New York Times, além de um livro (recomendando a leitura) de um conhecido esquerdista.

Não explicitou com todas as letras, mas disse que o Brasil, e a ESG em particular, trabalham para fortalecer a “integração dos países sul-americanos” (que me remeteu ao Bloco de Poder Regional Militar – Revolução Bolivariana), pois é necessário uma união com os países irmãos, vulnerabilizados com as “20 bases americanas” em nosso continente. Quer dizer, é a velha história da “invasão americana” em nosso território, o roubo da nossa água, etc. Falou também na Base de Alcântara, que precisamos ter os nossos próprios VLS para preservar o espaço aéreo hoje dominado pelo “império”.

Na conclusão, afirmou que era necessário trazer o “proletariado” para dentro das FFAA e acabar com o “elitismo” existente, pois o povo - a massa, o proletariado - precisava participar da defesa e da segurança da nação. Quando ele falou “proletariado”, escapou-me uma risada indiscreta que cuidei de abafar, pondo a mão na boca; mas, acho que foi ouvida, pois o silêncio era sepulcral. Azar! Isto é lá expressão para um Gen. de 4 estrelas proferir?

O amigo que foi comigo, um Capitão do EB, reiteradas vezes baixava a cabeça, lívido, e dizia: “Meu Deus, o que é isso? Este não é o meu EB; não pode ser o meu EB!”Quando ele terminou a palestra, franqueou a palavra e da platéia começaram as perguntinhas politicamente corretas. Nem um pio foi dado sobre o perigo das FARC, do Foro de São Paulo, do Eixo do Mal Latino-americano, do MST e do MLST, do desgoverno atual, dos escândalos, etc.! Parecia que estas coisas não existiam e que não eram nossos riscos maiores, reais; nada! E pelo jeito da platéia, comportadinha, penso que se um de nós dois levantasse essas questões, nos olhariam como se fôssemos ET’s ou alguém “deslocado” do contexto...

Depois disso, decidimos não ir à próxima palestra, a do Andrade Nery, pois temíamos por nossa saúde - a amostra grátis fora demasiadamente indigesta.

Sensação de impotência e tristeza, ao constatar que os comunas VENCERAM. Eles já dominam todas as instâncias do país e nós estamos literalmente sem alternativa, entregues à própria sorte.

O General (ex-Delegado da ADESG-Recife), meu amigo, não foi e agradeci a Deus por ele não ter estado presente, pois seria aviltante ouvir daquelas bocas que: este ano não teria havido curso porque o novo Delegado, o engº Clidenberg, encontrara “a casa muito desarrumada”. Evidentemente porque a ideologia antiga não se adaptava aos novos tempos. Sintomaticamente, não havia ninguém da antiga ADESG presente... FIM da carta.

Logo em seguida, em janeiro/06, o jornalista Olavo de Carvalho, desmascarou o Andrade Nery e o esquema da ESG. Não deu opinião, apresentou provas. E o que fazem os milicos? Ficam achando ruim a denúncia feita “por um coronelzinho recalcado”... São uns milicos de..., independente de posto ou graduação. Não tenho mais dúvidas: a infiltração já chegou aos 4 estrelas. Afirmação que faço há mais de três anos, desde que tomei conhecimento das palavras do Gen. Thaumaturgo Sotero Vaz à Imprensa. Mas não cansarei de protestar. Vou lhe mandar a entrevista do Thaumaturgo (Note a data - desde lá eles estão se infiltrando nos "generas", promovidos segundo critérios que todos nós sabemos quais são).

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